segunda-feira, 29 de outubro de 2018

O candidato

É fato que as mercadorias são forjadas como espetáculos e assim que se realizam na intimidade do lar de cada consumidor ela perde todo o seu glamour.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Mil línguas

Se anunciou há algum tempo um monstro de mil línguas, e mil cores, assim como a serpente emplumada. Os homens todos temem encontra-la tanto quanto desejam esse encontro. A serpente se move das zonas quentes buscando conforto nas zonas frias. Apenas o que resta agora e aprecia-lo, pois ela vivem entre todos.

No meu perdão faço dois anúncios

Bem vinda a pobre guerreira. Venha nos salvar.

Bem vindo o sacedorte jovem, que deverá decidir lutar entre o lado da sombra e o lado da luz.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

infinito


Cada gesto feito, será feito mil vezes
Toda mão de ódio, será mil mãos de ódios
Cada estupro, será  mil estupros
Cada aborto, será mil abortos,
Cada bastardo, será um exercito de bastardos.
Cada milha, serão mil milhas
E cada um dos suspiros de saudade, serão mil lagrimas
Cada pedido de ajuda, serão oração que ecoa por cada canto do profundo infinito

Você me escuta?
pode me escutar?
Voce esta ai?

E cada sorriso de Amor.
Brilhará no céu todo o sol
Que pode ser visto.
E num gesto único tudo estará certo

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

lição

No fundo da sala havia um painel com 99 cartelas, na quais estava uma ilustração, um numero e um nome.  
Os alunos não sabiam a principio do que se tratava, mas não tardou muito para que descobrissem.  Duas crianças que conversavam em horário inadequado foram forçadas a andar com focinheiras de ferro durante três dias. De fato na cartela 15, correspondente a palavra “silêncio” havia um desenho triangular que lembrava a focinheira.
O método se mostrava adequado, pois as crianças associaram rapidamente a palavra “silêncio” ao numero 15, à formula triangular, e incorporaram que não deveriam conversar entre si em hipótese alguma.
A professora esclarecia:
_  Cada castigo possui uma falta correspondente.
Numa segunda vez uma das crianças tropeçou. A professora apontou para a cartela 54 “furo”. Pegou o braço da criança com uma agulha muito fina, o atravessou, provocando um suave sangramento.  A criança gritou durante o procedimento, o que fez com a professora apontasse a cartela 5  “escuridão”. A professora levou a criança para uma cela na qual não havia luz.
Por outro lado, certo dia uma das crianças atirou um pedaço de madeira na professora. Todos suaram frio, a criança autora do desrespeito tremia o pânico. Foi indicado o numero 61 “desfile”. A professora instalou uma coleira no pescoço da criança, deu apenas uma volta com ela, em seguida desativou o castigo.
A professora parecia sempre comprometida a aplicar o castigo especifico. Certa vez uma das crianças levantou a cabeça antes da hora.  Se sabia que o castigo correspondente era “limpeza”, que consistia em raspar a pele das costas com uma lixa grossa. A criança começou a lacrimejar, ação que não possuía castigo determinado.  A professora se aproximou com a lixa, mas hesitou, pois  a criança chorava muito. Por alguns segundos pareceu que não seria dado o castigo, porém, após respirar profundamente, a professora foi firme e concluiu sua tarefa.
Aos poucos as crianças foram conhecendo um a um os castigos representados nas cartelas e suas respectivas faltas.  Exceto justamente a cartela 99, no qual havia uma trapézio invertido e trazia a palavra “intervalo”.

Até que um dia uma das crianças derramou um pouco de água. A professora chegou com um pedaço de ferro quente e marcou a mão das crianças. Uma delas entretanto falou que aquele seria o castigo 32 e não o 52. A professora, percebendo o seu erro, foi até o armário tirou uma pequena guilhotina colocou sobre a sua mesa, posicionou as próprias, e com os pé  a acionou.

sábado, 23 de dezembro de 2017

Acordo

Ricardo fez uma proposta de acordo para Geraldo, e adiantou que aceitaria todas as condições. Geraldo se aproveitando, resolveu reivindicar o máximo que pode.
Impôs que se apresentaria só quando desejasse. Condição aceita por Ricardo.
Propôs que teria a maior casa, jamais construída. Condição aceita. Própos que ganharia o dobro toda vez que desejasse. Aceita.
Geraldo resolveu impor condições cada vez mais    insolitas. Nenhuma negada por Ricardo.
Depois de não conseguir pensar em mais nada. Geraldo foi até Ricardo e disse que não aceitaria o acordo. Ficou com medo da contra partida.

domingo, 19 de novembro de 2017

casulo

O filho pergunta a mãe "o que é uma borboleta?". A mãe desesperada rompe o casulo e foge pra nunca mais voltar.

domingo, 12 de junho de 2016

Bom dia

De longe já se ve toda a incompetencia do sujeito.
Olha como se senta, percbe suas roupas? Falta de escrupulo sò pode ser falta de escrupulo.
Se vira pro lado. Por que tanto se virà pro lado? Por que me sorri? Ja se ve a indole. Nao vou me sentar ao seu lado.
Pra que tanto mexe o bigode naquele copo. Serà que acha que aqueel copo vai ficar mais limpos esfregando aquela bucha nele?
Se eu não me contenho, nem sei o que faço. Um sujeiro radical desses , não sabe nem conversar. E ai depois vem gente querendo defender. Eu sempre fico no meu canto pra não criar problema, mas desse jeito dè.
Ainda bem que já tá pagando, ainda bem que já vai embora.
Vai logo, ninguém te quer aqui, ninguém. Vai logo.


quarta-feira, 4 de março de 2015

conto 7

O pai do Eduardo bateu nele porque ele corria enquanto o bebê dormia.



Eduardo ficou com mais raiva do bebê, pois sentia que ele roubava toda a atenção.



Eduardo desejou que o bebê sumisse.



Um dia os pais do Eduardo tiveram que levar o bebê no hospital. Quando o carro saia, o porta-malas abriu, e o carro do bebê caiu.
Eduardo se assustou e se sentiu culpado com a queda do carrinho, e se arrependeu de desejar tanto mal para seu irmãozinho.



A noite seus pais chegaram com o bebê melhorzinho. Eduardo ficou muito feliz de ver o bebê bem, e passou a ser seu melhor amigo.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

conto 6

Foi naquela tarde, quando a Tia Laura chegou em casa.
_Quem fez essa bagunça no meu quarto?
_Foi a ratazana voadoura, Tia Laura.
_Martinha, você sabe que a ratazana voadoura não existe. Quem fez essa bagunça no meu quarto?
_Existe sim Tia Laura. Eu vi. Ela entrou pela janela. Abriu essa buraco no armário, e comeu toda as caixas de chocolate.
_Martinha, a ratazana voadoura não existe. Mas se você não quer dizer quem fez essa bagunça e comeu o chocolate suíço do Loló, tudo bem. Não tem problema nenhum.
Problema nenhum uma pinoia. A janta foi sopa de chuchu sem sobremesa. Mas Martinha nem ligou.

Os adultos diziam.
_Para de comer bala que a ratazana vai vir chupar seus dentes.
_Para de jogar videogame, senão a ratazana vai arrancar seus dedos.
_Para de falar no celular senão a ratazaná vai rasgar sua orelha.
As crianças todas morriam de medo. Martinha não. Martinha queria comer todas os chicletes, ter bolhas nos dedos de jogar videogame, calos na orelha, só pra ver o roedor alado.

As crianças se escondiam de Martinha, que não se importava. Se alguma criança se aproximava para importuná-la. Martinha dizia:

Voa voa ratazana voadoura.
E apareça bem aqui agoura

Voa voa ratazana voadoura.
E apareça bem aqui agoura

Voa voa ratazana voadoura.
E apareça bem ….

Antes que Martinha completasse o terceiro verso, a outra criança já estava longe, e Martinha continuava em paz.
Só que Martinha sabia que não adiantava chamar, a Ratazana nunca mais apareceria.

Foi naquela tarde na casa da tia Laura que Martinha viu a Ratazana. Depois que ela saiu pra comprar mais cocola para alimentar seu lianlazian que já tinha comido meio balde de chocolate belga, e ficara cheio de energia para latir e perseguir Martinha que se defendia com uma vassoura. Naquela tarde, de repente, um guinchado de horror pode ser escutado. O lianlazian fugiu rapidamente, antes que duas lindas asas brancas invadissem o quarto da tia Laura e devorassem todo o chocolate que sobrou, e ainda destruíssem todo o armário famintas por mais doce.

Martinha tentou aprisionar o animal, mas armada somente com a vassoura só conseguiu assustar o bicho que destruiu todo o quarto e fugiu.

Martinha ficou decepcionada e maravilhada com a criatura que voava pela janela. Nem ligou para sopa de chuchu sem sobremesa.

Foi desde então que Martinha ficou decidida a rever a ratazana.

Mas parecia inútil, por mais Martinha comesse chocolate, por mais que chamasse, a bicha não aparecia. A garota entretanto sabia onde procurar. Foi quando soube que ficaria de novo na casa da tia Laura que armou seu plano. Esperou que a tia Laura, saísse para fazer compras, depois abriu os chocolates comprados para todo o mês. Colocou todas na sala.
O cachorro maldito, correu latindo atrás de Martinha, mas quando viu aquela montanha de chocolate resolver se afogar nela.

Martinha começou:

_Voa Voa ratazana....

_Voa Voa ratazana....

_Voa Voa ratazana....

E de repente asas enormes encobriram as luzes do quarto e um só ZAP, arrancaram a cabeça do lianlazian com chocolate e tudo.
O animal começou a comer todo aquelas guloseimas e nem percebeu que Martinha se aproximava com um cesto de lixo. Martinha caminhava em silêncio, mas por acaso do destino, suspirou. O animal escutou e procurou fugir, mas Martinha já havia fechado todas as portas e janelas. A ratazana voou loucamente pela casa, destruindo vasos, quadros, móveis Martinha corria atrás.

A noite quando tia Laura chega, se depara com uma casa toda destruída, chocolate esparramado por todos os lados, e um cachorro sem cabeça.

Tia Laura grita:
_ MARTINHA

Martinha não foi encontrada nem a ratazana, ao invés disso apenas uma janela abrindo espaço para imensidão azul do dia.


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

conto 5

Mãe e filho viviam brigando. Brigavam por tudo, pelas roupas surradas, pelas bolas chutadas, pela falta de higiene. Um dia o filho disse que faria uma tatuagem. A mãe proibiu fortemente. Os dois brigaram outra vez. Brigaram tanto, que o menino ficou quieto e foi para seu quarto. Ficou quieto vários dias, tao quieto que um dia a mãe resolveu  ver o menino tomando banho.
Surpresa! Havia um desenho de um cachorro nas costas do filho.
A mae entrou no banheiro brigando, o menino foi respondendo. Os dois brigaram tanto que de repente o menino latiu. A mãe retrucou, ai o menino latiu de novo, e não conseguiu mais falar. A mãe sacudiu o menino, como se o sacude fizesse sair pra fora a capacidade de falar. E não é que saiu uma voz, mas não era a voz do menino, era uma voz que emanava. Uma voz possante. Era o cachorro da tatuagem que falava.
_Minha senhora, não adianta sacudir. Só deixara seu filho tonto.
_Meu deus, você fala!
_Sim falo, agora falo melhor que seu filho, que agora só lati.


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

conto 5

Antes só havia o silêncio, um silêncio total e absoluto, foi quando se iniciou a Palavra. Ela fazia um esforço para nascer naquele mar de calma. Fazia muito esforço, muito esforço. Até que, bumba, Nasceu.

Era M, a Palavra.

O silencio não despareceu. A Palavra e o Silencio eram a mesma coisa e ecoavam por ai como irmãos.

M era a fonte de todas as outras palavras, quando alguém queria dizer algo, ao contrário do que se pode imaginar, dizia M. Todas as palavras a serem ditas eram criadas a partir de M, em um tempo onde as coisas sussurravam o próprio nome.

Por que hoje em dia as pessoas não dizem mais M?
Eu não sei direito, mas acredito que as pessoas não dizem mais M  por conta das cadeiras. É verdade: as cadeiras. Talvez assim como as cadeias e as carteiras, as cadeiras impedem que as pessoas conseguiam dizer a única palavra. Foram as cadeiras que permitiram que as pessoas mentissem e dissessem qualquer coisa, antes não dava.

Por isso que eu sugiro que para por fim a mentira que existe que todo mundo sente de agora em diante como índios.


Eu ensino, você paga uma perna, cruza com a outra perna e senta, fica bem molinho e pode conversar com seu amigo do lado. E quando tiver bem relaxadinho, possa soltar um PUM bem sincero.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

conto 4

Neco se esticava na cama chateado. O pai perguntava se ele não sairia de casa. O menino dizia que não. Não tinha mais motivos para sair de casa, desde que teve fim o time do Podrão.
Neco não lembrava como começou o time do Podrão, só lembrava que quando começou ele já estava por lá. Ia sempre no Podrão, um lugar conhecido pelo cheiro ruim que espantava até urubu, mas que não causou arrepio em Neco, porque seu nariz entupido. Neco achava o matagal que envolvia o Podrão um lugar agradável para prática de chute a bola.



Não lembrava se quando chegou o Totói já estava ali, ou se ele chegou depois, mas lembrava que suas primeiras pernadas na bola teve como parceiro o Totói. Neco tinha quase certeza que a Marmota estava lá, e o Piolho também. Na verdade todo mundo tinha chegado meio junto, Perneta, Zaroio, Dodonha, Fufu, Caca, Jojo, Aranha, Volinho e Pirambeira. Era essa toda a equipe, às vezes estavam todos, as vezes não estava ninguém, mas quando estavam juntos a bola rolava alegre. As tardes corriam até a ultima gota de sol, como se fossem o último time do mundo, até a bola ficar redonda demais naquela escuridão, as mutucas atacarem com fome, e já fora hora de voltar pra casa.



Um dia o Alfredo, primo do Neco,  disse que o vizinho dele tinha se inscrito em um campeonato de futebol  que valia um premio. A lanterninha da cozinha da cabeça do Neco acendeu. Ele resolveu convencer todos da equipe que eles deveriam se inscrever no tal campeonato, o que não foi fácil, pois significariam que deveriam estar todos nos mesmo horário, e alguns não acordavam cedo de jeito nenhum. Depois de todos estarem de acordo, tiveram que arranjar dinheiro pra inscrição, o que significou pedidos para os pais, carregamentos de sacolas para vizinhança e até pequenos furtos. Finalmente conseguiram juntar o dinheiro necessário, então tiveram que pedir para um adulto. Foi o próprio pai do Neco que inscreveu a equipe no Campeonato Juvenil de Futebol Amador.



Neco estava tão animado que conseguiu contagiar todos para que estivessem na hora, no dia e no local que a equipe defenderia seu brasão. O dia ensolarado prometia uma partida emocionante. Mas não foi exatamente o que aconteceu. A equipe do Podrão sofreu desde o começo, primeiramente com dois desfalques. O campeonato permita apenas garotos, o que impedia que Perneta e Caca jogassem, já que eram meninas,  apesar do protestos das duas, e de toda a equipe, já que Perneta era a grande craque do Podrão.



Mas os problemas não pararam por ai. Nitidamente prejudicada pela arbitragem, a equipe do Podrão não teve momento de descanso. Logo no inicio, disse o juiz,  que eles não podiam começar jogando com a bola, pois o adversário havia ganho no par o impar. Depois tiveram a bola tomada pelo próprio juiz que disse que eles deveriam respeitar quando ele usasse aquele apito insuportável. Depois disse que eles não podia chutar a bola para muito longe, que era fora, não podiam socar o adversário que era falta, não podiam botar a mão na bola que era falta, não podiam xingar que era falta, e falta, e falta e falta, e gol, e gol, e gol do adversário. Mal escutavam gol já viam a rede balançando de novo, um verdadeiro massacre.



Massacre tão duro, que abalou até o brio de Neco, que irritado com aquela humilhação, acusou Zaroio por haver cuspido no juiz, Zaroio disse que se defendia das broncas injustas que tomava. Neco também acusou Jojo, de não haver tocado na bola. Jojo respondeu que preferia ficar quieto a ficar escutando as apitadas. Totoi ficou com raiva de Neco, por distribuir broncas e fazer com que ele gastasse toda sua mesada naquele campeonato, estúpido. Volinho foi defender Neco. Perneta e Caca ficaram com raiva de todos os meninos que jogaram mesmo sem as duas. No final todo mundo estava com raiva de todo mundo, e foram todos para casa jurando nunca mais pisar no Podrão.



Ninguém ficou mais abalado que Neco, que havia apostado muito naquele campeonato, e agora não tinha nem mais time para jogar. Foram meses que ele passou sem pensar em bola,  ficando cada vez mais triste, até que uma saudadeiznha começou a apertar seu coração, e apesar de tudo, ele volta ao Podrão, mas quando ele volta a aquela arena que havia recebido altas demonstrações da arte com a bola ele a encontra toda cercada com uma placa dizendo, que por ali passaria uma avenida.


Neco ficou arrasado, se sentia culpado pelo fim tão triste da equipe do Podrão, lembrou com saudade. Seus olhos marearam. Assuou o nariz e sentiu falta até do fedo do Podrão, tanta saudade que teve a impressão que até sentia o cheiro do Podrão. Opa mas não era só impressão, ele sentia o cheiro do Podrão. Neco foi seguindo farejando aquele fedo, até chegar a um matagal, no meio de um terreno baldio. Neco reconheceu aquele cheiro horrível de crianças correndo atrás de uma bola. Pode ver ao fim, no meio do mato alto, todo mundo ali. O pessoal quando viu Neco acenou para que ele se aproximasse. O Podrão estava ali, e a melhor equipe do mundo podia continuar jogando.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

conto 3

Os animais correm desesperados para a escuridão da mata. Um homem sábio reconhece que só pode ser Jurueca que provocou tamanho pavor e também se recolherá antes que o monstro o veja.
Jurueça é uma criatura que caminha comendo tudo que existe. Movida por uma fome furiosa, que não poupa nem a mais duras das pedras. Seu corpo coberto por mil bocas atacam a tudo que esteja a seu alcance, e são capazes de descobrir até o ser mais oculto passível de ser devorado. Todos devem temer Jurueça. Todos sabem disso.

Entretanto poucos sabem que este monstro que provoca tanto medo, já foi uma bela jovem, que tinha tanta vontade de conhecer o mundo que fez brotar em sua testa um terceiro olho. Mas a jovem queria mais, e logo surgiu um olho em sua garganta. Não satisfeita fez surgir um quinto olho em seu umbigo, em seguida um sexto em suas costas. Sua curiosidade era tanta que logo seu corpo estava coberto por olhos, que desejavam ver tudo que existia.

Aqueles olhos desejosos da experiência, não se contentavam em ver, foi um passo para que eles engolissem tudo que estavam a seu alcance. Jurueça em seu desespero de conhecer, acabou sendo condenada a vagar pelo mundo devorando tudo que se pusesse em seu caminho numa vontade de conhecer que não podia ser satisfeita.

Entretanto, a bela jovem que habita o corpo do monstro, uma vez por dia, antes que o sol se ponha, faz um esforço e fecha todos seus olhos-bocas, revelando toda sua beleza. E por alguns instantes ela se banha nas águas de uma cachoeira, na esperança de viver uma calma que foi perdida para sempre .
Um dia, como fazia sempre, Jurueça fechou todos os seus olhos e foi banhar-se, sem perceber que um jovem se aproximava podendo ver toda a beleza perdida do monstro. O jovem olha maravilhado para tanta beleza, até perceber que os olhos começam a se despertar, e foge de um golpe só, mantendo-se inpercepido.

O jovem resolve observar o banho da Jurueça todos os dias, fugindo ao perceber que os olhos começam a se abrir. Sem conseguir resistir, ele vai se apaixonando pelo monstro. Até um dia, que incapaz a resistir a sua paixão ele se aproxima enquanto Jurueça se banha. E ajoelhado diz:

_Jurueça_Diz o rapaz.
O monstro se vira assustado, abrindo de uma vez todos os olhos.

_Você é a coisa mais formosa que vi em toda minha vida. E queria dizer que todo meu amor é seu.
Jurueça se emociona com o amor daquele jovem. Justo ela que havia se acostumado com o pavor e ódio de todas criaturas, agora ela podia receber o amor.

Os mil olhos de Jurueça então se encham de lagrimas. Seu coração, acelera, como acontece com os amantes e tomada do mais puro amor, ela devora de uma só vez o jovem.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

conto 2

O Joãozinho comprou a revista do Capitão da Capa Amarela, e gostou muito, porque o Capitão da Capa Amarela acordou às seis da manha como Joãozinho, o Capitão da Capa Amarela havia comido arroz, feijão, bife e salada no almoço, assim como Joãozinho, o Capitão da Capa Amarela, assistia ao desenho antes da novela, do mesmo jeito que Joãozinho, tudo que Joãozinho fazia o Capitão da Capa Amarela também fazia. 

Joãozinho gostou tanto da revista do Capitão da Capa Amarela, que indicou para Biazinha. A Biazinha adorou a revista do Capitão da Capa Amarela, porque que o Capitão da Capa Amarela fez a Biazinha já tinha feito também. A Biazinha perdeu o último dente aos sete anos, o Capitão da Capa Amarela também. A Biazinha não gostava de dentista, Capitão da Capa Amarela tampouco. A Biazinha aprendeu a anda de bicicleta, o Capitão da Capa Amarela também. A Biazinha gostou tanto, que recomendou a revista para a Carlinha.ç

A Carlinha virou fã do Capitão da Capa Amarela, porque tudo que ela queria fazer o Capitão da Capa Amarela também queria: a Carlinha queria arrumar o quarto no fim de semana, o Capitão da Capa Amarela tinha arrumado o quarto no fim de semana. A Carlinha queria tomar groselha com leite, o Capitão da Capa Amarela tinha tomado um copão de leite rosado. A Carlinha queria dar para mãe uma panela. O Capitão da Capa Amarela tinha dado uma panela bem bonita para mãe dele. A Carlinha gostou tanto que elogiou a revista para o Zezinho.

O Zezinho também gostou da revista, mas percebeu que ele faziam uma coisa que o Capitão da Capa Amarela não fazia: O Capitão da Capa Amarela não lia a revista do Capitão da Capa Amarela!
Foi então que Zezinho resolveu ele mesmo escrever as histórias.

O Capitão da Capa Amarela encontra na sala de sua casa uma bisnaga integral, ele dá uma mordida, sem saber que se tratava de um portal para o incrível mundo das conchas pacifistas. O rei das conchas pacifistas chama o Capitão da Capa Amarela, para um jantar, onde só se podia segurar os talheres com os pés, o que provocou uma fome avassaladora na barriga de nosso herói. O rei concha confessou que para manter a paz no seu reino ele precisava encontrar o bumerangue escarlate, que poderia banir todo tipo de desentendimento deste mundo. Para tanto ele precisava do auxilio do Capitão da Capa Amarela, experta em assuntos bumeranlógicos. O nosso herói. Se sente honrado, mas não sabia como iniciar sua busca. O Rei sugere que o Capitão da Capa Amarela, busque o buraco enclavado. O herói inicia a busca, mas logo descobre que o buraco é uma armadilha da pimenta assassina…


E assim segue a história de Zezinho. Que vai cada vez escrevendo mais e mais e mais, escrevendo tanto que não se da conta da capa amarela que balançava em sua janela.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

conto 1

A mãe procura alguém pra cuidar do menino enquanto ela trabalha.
O menino, pra matar o tempo, atira pedras na rua. Atira uma, depois outra, e mais outra, até percebe que um fiozinho d água escapulia por um buraco que uma das pedras abriu na rua.
O menino, assustado, enfia o dedo pra tapar.
A mãe, vendo a cena e sem entender nada, dá uma bronca e puxa o menino com o dedo junto. O buraco fica maior.
A mãe dá um grito quando vê um peixinho saindo pelo buraco.
A vizinha sai pra ver de quem era o grito. Vê o buraco cuspindo água. Pega um cabo de vassoura e enfia de uma vez. A água para por pouco tempo. Até um caranguejo, com sua pata, empurrar a vassoura pra fora e sair correndo atrás da água.
O padeiro, preocupado com o vazamento, leva uma baguete pra por fim aquela aguaceira. Mas uma tartaruga não deixa que ele realize seus planos.
O pessoal resolve chamar o encanador pra resolver o vazamento. O encanador, coitado, fica amarrado a um polvo que dá um abraço, achando que eram amigos.
Os moradores, então convocam a polícia, que foge de medo de um tubarão que surgia do buraco.

A situação não tinha jeito, precisavam chamar os bombeiros. Os bombeiros chegam a tempo pra ver uma imensa baleia saindo do buraco. Eles até tentam resolver a calamidade, mas já era tarde, todo mundo já se divertia na praia.  

domingo, 21 de dezembro de 2014

conto 4

A mãe se escondia atrás de uma pilha de roupa que precisava ser lavada quando o menino diz:
_Tive um sonho ruim
A mãe não se abala com a confissão.
_Eu sonhei que o avô morreu, que a avó morreu, que o tio e a tia morreram, que o pai morreu, que você morreu, que eu morri….
_Ai menino, para de falar besteira!
_Mas é verdade mãe, eu morri.
_Cala boca, menino.
A mãe não era de dar bronca, mas muito se preocupava com tudo que tinha de fazer. Precisava lavar a louca, lavar a roupa, depois secar, passar, limpar os quartos, a sala, a cozinha, a copa, o quintal, e o trabalho só se amontoando. Precisava se virar com a falta de dinheiro e buscar formas de sustentar a casa. Não queria ter mais uma preocupação. Não queria se preocupar com um diminuto que creia não estar vivo, destemendo a morte.
_Menino, desce já da janela. Você vai se machucar.
_Não vou não mãe! Eu já morri.
Podia ser que o menino não tivesse mais medo da morte, mas sentia medo de umas boas chineladas.
A mãe batia, mas sentia pena, o menino não fazia por mal. Mas ela também não podia deixar que ele ficasse por ai brincando com facas, correndo atrás de cachorros na rua, se pendurando em árvores.
_Hoje eu falei na escola que eu estava morto, ai as crianças começaram a rir. Ai eu falei que ia na casa delas a noite, e agora todo mundo tem medo de mim.
_Para de falar essas coisas, vai ficar sem nenhum amigo.
A mãe sabia a dificuldade de estar sozinha cuidando de uma criança tão pequena. Mas a vida é assim. As crianças precisam ser cuidadas, elas não crescem sozinhas, mesmo aquelas que pensam que estão mortas.
Certa vez a mãe acordou sentindo um cheiro de queimado. Levantou desesperada. Um bafo vinha da cozinha. O menino estava lá, hipnotizado pela mobília incendiando. A mãe desesperada, atravessou o fogo e conseguiu abrir as torneiras e lançar a água contra as chamas que já ganhavam volume. Foi com alguma luta que ela encerrou o perigo, mas o menino ficou com as mãos queimadas.
_Foi você que fez isso?
O menino, ainda atonito, sacudiu positivamente a cabeça. A mãe chorou o destino da cozinha, estava tudo destruído, e a falta de dinheiro não ajudaria em nada. O menino percebido da angustia da mãe diz.
_ Mãe, eu vou te ajudar.
A mãe chorou o seu destino.
Desde então o menino esqueceu a certeza da própria morte. As marcas do fogo na mão mostravam que ele estava bem vivo. Tão vivo que começou a cuidar de tudo, ajudava a mãe nas necessidades da casa, da comida até os pregos. Começou a trabalhar duro, terminou os estudos, conheceu uma moça, casou-se, teve seus próprios filhos.
A mãe foi acompanhando o menino crescer e ficar responsável. Foi também se acostumando no seu canto, vendo-o cuidar de si mesmo e de toda família. Se acostumou tanto que um dia mal percebeu, quando sentou-se na mesa de jantar, que não havia um prato para ela. Então olhou a família do filho comendo e conversando feliz. Logo se deu conta que poderia seguir seu caminho em paz.


terça-feira, 27 de maio de 2014

Conto 3

Ele tenta com esforço ver o que ocorre la embaixo, busca árvores, automóveis, pedestres, asfaltos, semáforos, uma moça saindo tarde de casa, um solitário taxista, um ambulante boêmio, mas mal consegue diferenciar um saco de lixo de um dentista. Apenas pode ver o reflexo do amplo salão nos vidros da janela, por mais que este ambiente pareça ser menos iluminado que a noite.

Fred finalmente desiste de encontrar qualquer distração, e se volta para dentro.
Fred não fala, apesar de estar entre amigos, de ser seu aniversario, da extravagante comemoração, ele não fala. Não fala, porque não conseguiu enxergar a rua. Realmente, nem podia mais produzir um sorriso que disfarçasse seu tédio. Tédio era a única palavra que ainda fazia sentido para Fred, nem raiva, nem tristeza, nem melancolia, só uma angustia que ele remoia com tão constante dedicação que já acreditava ser parte tão vital quanto o coração.
Carmela, namorada de Fred, organizara a comemoração. A praxe era que as cerimônias da fraternidade fossem convocadas por ele e cada um dos membros fosse responsável por trazer os convidados. Esta era primeira tentativa de convocação de Carmela, uma tentativa tão ousada que ninguém teve esperanças que Fred se emocionasse.
Há tempos a fraternidade havia sido formada. A Fraternidade da Esperança como dizia o próprio Fred, “onde se buscaria o limite da liberdade que o corpo humano poderia produzir”, e de fato tentaram do possível ao impossível, até finalmente desenvolver-se o Liquido, último enclave desta saga, resultado de processo custoso e complexo, de matéria-prima difícil de extrair e ainda mais dificil de sintetizar. que só era levado a cabo pela forte sensaçao proporcionada pela sua ingestao.
Fred admitia que houve a sua graça, quando começaram a consumi-lo. Mas agora não surtia qualquer efeito em seu corpo, e ninguém conseguia imaginar que outro caminho poderia ser tomado. Talvez o mais certo seria dissolver o grupo, decisao censurada pelo temor do que poderia ser a vida após.
Senilidade da vanguarda_ apelidava Fred. Já não tinha mais animos para aqueles encontros, mas para sua triste surpresa a fraternidade lhe preparara algo que ele já havia classificado como excrescência, mesmo porque há tempo não comemorava seu próprio aniversario. homenagem que pouco fazia sentido para ele, um homem acima do tempo, como a si mesmo se referia. Tudo era tão desprezível, que Fred decidiu desmoralizar de uma vez por todas aquele decrépito evento, assumindo o papel de orador, do qual, uma vez, tanto se orgulhou.
_Senhores, Boa noite. Os agradeço pela cerimônia que me oferecem, me honro pela homenagem prestada e pelo afeto com que sou recebido pelos amigos mais próximos, assim como pelos demais convidados. Entretanto, esta noite de alegria me provoca pesar, pois não posso me esquivar da indignação que sinto diante de alguns equívocos que temos repetido durante os últimos anos. Todos os mais íntimos sabem do assunto que pauto, e espero que, assim como eu, se repreendam também Mas evidenciarei o tema para os indivíduos mais distraídos e para os novos convidados. Iniciarei rejeitando os mal tratos que temos dedicado a nossos colaboradores. Essas pobres criaturas que não tem como se defender são alvos das mais diversas humilhações que a nossa cruel imaginação é capaz de cunhar. Sabemos que essa noite não é mais do que um novo turno desse tipo de atrocidade, todos sabemos disso, nós e eles. Em seguida, depois que um de nós estiver em condições avançadas de entorpecimento se iniciarão as nossas inconsequentes barbaridades. E para que?
Parte dos amigos aplaude. Fred não se detem.
_Contudo, existe questão, que por sua importäncia, necessita de pauta especifica. Sabemos do que se trata, algo a que reduzimos toda a nossa existencia, e que no momento eu me encontro liberto. O liquido, substancia que aprendemos a extrair e benficiar, tem sido o maior motivo de nossa lamentavel situação. Testemunho pois já me libertei desta substância, e acredito que vocês devam seguir o mesmo caminho. Vejam o estágio ao qual chegamos, qualquer motivo é suficiente para se engeri-lo, mas nunca haverá suficiente. Sabemos que o liquido é ilicito, e sabemos o custo que é se livrar dos residuos de sua produção. Não acredito que se possa seguir assim, por isso evoco o último resto de dignidade que nos resta e deixemos esta mancha em nossas histórias e assim possamos cultivar uma nova forma de humanidade.
Os presentes iniciaram um burburinho, alguns aplaudiram, outros deram uma forte risada, como se o pedido fosse mais uma idiossicrasia da festa. Mas Carmela não achou a menor graça, e fez a sua fala:
_Hipócrita, isso é o que é, um hipócrita. Discursa como se tivesse muita decência, mas sabemos que suas ações vão pra um caminho diverso. Discursa como se temesse a lei, como se não houvesse feito coisa pior. Você não sabe o que quer, a única coisa que procura é cultivar sua maioridade em relação aos demais. Meus amigos, esse discurso é só para isso, não veem? Ele só deseja mostrar a vulgaridade de nosso atos, e que ele, o iluminado de nosso grupo, recusa nossa bestialidade, como se a primeira besta não fosse ele, como se não fosse o criador do liquido. Quando ele nos acusou de sermos reprimidos, crianças mimadas que sentem vergonha de buscar a liberdade, quando já tinha esgotado qualquer vitalidade em seu corpo. Nós o seguimos de bom coração. E agora, de novo quase moribundo, inventa que devemos mudar nosso hábitos, como se com isso não fossemos sacrificar a originalidade de nós mesmos. E quando assim fizermos ele nos acusará de conservadores. Ele pensa que é ainda possível encontrar algo que o tire da letargia. Pois saiba, meu amado, que não existe mais nada. Não nos deixemos enganar por essa figura moribunda.
Fred olha indiferente a Carmela, com a luz de uma lâmpada branca refletindo o seu rosto. Carmela, em contraste, bufa de ódio, sentimento que ela ainda contiva. Ódio que foi crescendo a cada dia que compartia com Fred e seus comentários que invariavelmente, a desqualificavam. Mas como a única emoção que conseguia sentir era justamente este ódio, vivia ao lado de Fred.
Fred fitou lentamente os convidados que se divertiam com a briga do casal atrás da luz que pouca iluminava o salão.
_Desgraçado, se não fizesse esforço não teria organizado esta maldita festa pra despresivel como você. _bradou Carmela.
_Essa festa? Isso aqui? Não precisa me insultar. Eu sei que essa festa era para você, você que se diverte com este tipo de desgraça.
_Desgraçado é você, você que não sente mais nada, que é um infeliz, que não tem com quem contar. Essa festa estaria vazia se não fosse por mim.
_Pois tenho que reconhecer seu esforço em me agradar. Por exemplo este rapaz com quem você passou a noite conversando, ele sabe sobre as suas boas intenções? Será que ele é capaz de imaginar?
O rapaz em questão já não é mais capaz de caminhar por conta própria, cai no chao e começa vomitar.
_Meu querido, ele não poderia imaginar, pois ele era um presente. Um presente custoso, que me exigiu muita paciência, mas infelizmente ele agora poderá não cooperar, graças a seu gesto humanista.
O rapaz vomita tanto que um dos empregados carrega para uma das portas.
_Seu eu precisasse de uma criatura tão miserável eu mesmo teria buscado. Mas eu já não preciso disso. Inclusive meus queridos penetras, vocês sabem que quem se diverte mais com a festa são exatamente os nossos ilustres convidados? Desfrutem da bebida e preparem seus corações, pois a noite será entretida.
Jaime, um amigo antigo de Fred começa a gargalhar histericamente:
_Fred, meu caro, eu estava preocupado contigo, parecia que você tinha perdido a vontade nas pequenas artes, mas vejo que estava completamente enganado. Nunca tinha te visto tão irônico, e digo que este tempo que tem se mantido limpo tem te feito mal.
Fred boceja .
_Jaime, meu bom Jaime. Você sabe que esse detrito que o faz um pouco menos entediado, já não me causa qualquer comoção. Sabe que eu nunca estive tão lúcido e que tudo que digo é a mais crua verdade, e que se tem alguma ironia nisso tudo, e a falta de iniciativa de acabar ou começar com tudo de uma vez. A única ironia aqui é sua covardia para decidir o caminho a seguir.
Jaime disfarça o insulto e se retira para uma sala fechada. Carmela enxarcada de ódio, continua sua gritaria.
_ Nem o mais leal dos seus companheiros você preserva. Você não merece ninguém, muito menos a mim. Não adianta manter esse sorriso na cara, pois eu sei que você não sente nenhuma alegria, você não sente nada. Não sente mais nada.
Uma das amigas de Carmela, a abraça e sussurra algo em seu ouvido, parecia que queria acalmar a senhorita. Carmela estava transtornada, mas prestava atenção no que dizia a moça, até despencar em choro. Fred nunca a havia visto chorar, talvez fosse mentira. Mas seus os olhos estavam vermelhos. Uma de suas amigas a abraça e a conduz a um quarto.
Antes de se retirar ainda grita:
_Isto tudo é sua culpa.
Fred sabe que é verdade, mas não sente culpa alguma, nem acha graça na cena deplorável de Carmela. Ele resolve voltar a se aproximar na enorme vidraça que separa o salão do resto da noite. A vida continua lá fora e ninguém se importa. Fred busca mais uma vez qualquer coisa, sem conseguir encontrar. Não se frusta, pois já imaginava que não encontraria, talvez não tivesse o que procurar. Vira-se de costas e vê que ninguém se alterou com seu discurso.
O liquido já podia ser servido, o empregados passam pelo ambiente oferecendo taças. Apesar de sua indiferença, Fred orgulhoso reconhecia que realmente se tratava de iguaria. Oferecer a bebida para os convidados era um desperdicio para Fred, pois gente tão despreparada era incapz de desgutar artigo tão refinado. Para ele, só os membros deveriam desfrutar do Liquido.
Em alguns minutos o Liquido começa surtir efeito. Uma moça chora, mas talvez que qualquer relação com o intoerpecente. Alguém grita alto, apesar das suplicas de sua acompanhante para permanecer em silêncio. Um casal resolve se aproximar a um dos quartos, o que gera desconforto ao sujeito encarregado de abrir as portas. Um dos anfitriões se apressa em servir mais, para que os nervos relaxassem ou se exaltassem de vez.
Aos poucos a festa se torna o que deveria ser. Em breve um dos anfitriões iniciará as atividades. Esta noite será Jaime, que principia um discurso, mesmo sob o estado alterado dos presentes.
_Fred, caro amigo, sabe que durante todos estes anos, eu tenho estado ao seu lado, sempre o apoiei seduzido pela sua indiscutível inteligência e ousadia, e tenho que reconhecer que essa convivência constituiu momento de evolução para mim, contudo, como não poderia deixar de ser, em algum momento o brilho que no inicio ofusca nossos olhos, vai se esmaecendo em um inexpressivo fosco. Esta festa era para ti, Fred, pensamos em dar-lhe algum presente, algo que pudesse ressucitar suas adormecidas emoçoes. Entretanto, creio, após conversar com outros de nossos companheiros, que o seu tédio não tem mais limites. Já provaste de tudo, não existe sabor raro que não tenha sido objeto do seu paladar, e já não há nada nesta vida que te possa causar qualquer arrepio. Por isso é fato que nosso presente mais justo é transforma-lo em o homenageado da noite, diante de todos, para que não reste dúvida sob qual sensação é a mais aguda.
Fred sorri, mas no seu fundo está surpreso, pois sente medo. Sente medo da crueza de seus parceiros, assim como outros sentiram medo dele. Mas sobretudo, sente um outro tipo de medo, medo de ser desonrado como um daqueles estúpidos convidados que ignoravam a mais elementar das verdades. O medo, era algo que há muito não sentia. O medo lhe atrai, Fred começa a se excitar com o medo.
_Pois bem meus queridos, a dor pouco importa para quem já não vive. Logo se assim desejam eu pouco farei para evitá-la. Mas fiquem cientes, que assim que o fizerem, serei somente o primeiro , os demais sempre serão perseguidos pelo temor de serem os próximos.
_Sabemos disso Fred. Não foi uma decisão fácil, mas diante de tudo que já foi feito, talvez seja a senteça a ser cumprida por cada um de nós.
Ninguém mais ri no ambiente. Pedem a Fred que se levante, ele não obedece, um sujeito forte se aproxima e arrasta o atrofiado corpo de Fred. Neste instante trazem uma obscura cadeira de metal para o meio da sala, sob a qual Fred é atirado e amarrado. Em seguida uma moça traz um copo com um liquido verde que forçam Fred a beber. Ele grita e se debate, mas os músculos da face e do corpo vão aos poucos cansando. A carne fica fraca. Desiste de sua luta, enquanto os efeitos do químico que ingerira começam a se manifestar.
Carmela sai de dentro de uma das diversas salas. Ela com os olhos vermelhos e inchados, se aproxima lentamente. Já não aparenta tanto ódio, na verdade parece deter seus próprios passos, até se posicionar atrás da cadeira na qual  Fred esta pendurado.
Ela ergue os braços, mas hesita.
Fred percebe a hesitação, toma a palavra, balbuciada.
_Meus amigos, digo que não sinto rancor por nenhum de vocês, contudo quero fazer um ultimo pedido, um ultimo pedido de aniversario.
. Com as lágrimas lhe tomando novamente a face e os soluços lhe tomando a fala, Carmela responde:
_Meu amado Fred, apesar de nossas desavenças, sempre haverá algo que liga a nós dois. Também sei que faço isso pois coloco a decisão do grupo acima de tudo. Mas seguirei te amando e me encarregarei de realizar seu ultimo pedido.
_Pois bem, amigos. Eu desejo que a próxima seja esta vadia.
Carmela de uma vez mostra a todos como se extrai o liquido.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

conto 2




Conto 2
A lua iluminava uma trilha vermelha que desenhava o caminho até a esconderijo do predador. Horácio observava oculto ao longe, distância cuidadosamente mantida para não atiçar o faro do bicho. Ou quem sabe por medo. Temia que caso a fera não o matasse, outra coisa o mataria. Todos os cantos eram suspeitos: olhos vigiavam à espreita, um coro insuportável de insetos camuflava a respiração dos inúmeros inimigos.
Seu corpo exausto pedia para parar e descansar, quiçá retornar, buscar um lugar mais cômodo e seguro, mais quente, ao invés daquela floresta fria e ameaçadora. O esforço despendido o castigava. E por que tudo isso?
Horácio começa a recompor cada pegada que o condenava ao presente cruel. Ela, ignorando que ele desejava permanecer em casa, armou uma cesta com comida: _Quero comer no meio do mato_, dizia. _Temos de sair um pouco desta casa. Quero ar fresco_. Mas Horácio sentia que ela só queria contradizer seu desejo. O dia prometia ser gélido e pálido, péssimo para um passeio tão improvisado. Ela, visivelmente, não tinha qualquer plano traçado, simplesmente seguia uma vontade impulsiva, dissimulada em seu sorriso constante.
Horácio, injuriado, sentia o corpo sonolento, pedindo para não ir, mas não tinha coragem de contrariá-la. Eram tão lindos seus longos cabelos, suaves como a pele do sofá, fios tão negros quanto as cortinas fechando o quarto. A sua pele branca era tão macia quanto o toque dos lençóis. Seu cheiro, sedutor, enfeitiçava de tal maneira que não se podia mais pensar em algo que não fosse ela. Horácio sabia que nunca conseguiria negar qualquer pedido seu, por mais tolo que fosse. Mas ela só pedia que a acompanhasse a um piquenique.
Os dois se puseram em marcha. O caminho que ela inventou era longo, parecia não ter fim. O dia já vinha alto e ela ainda desejava cruzar um imenso pasto em busca de um rio, que não dava qualquer sinal de estar próximo. Os dois seguiam, sem trocar qualquer tipo de palavra ou qualquer afago, ela só balançava o deslumbrante vestido e vez ou outra soltava algum suspiro armado com seu sorriso. E que sorriso! Toda vez que ela sorria, Horácio se sentia mais atado àquele sorriso emoldurado em seus lábios tão delicados.
Os dois se enveredavam cada vez mais por um vasto e denso gramado. A tarde amena já não causava os incômodos do sol ardente. Ela deslizava atraente, sempre arrastando Horácio para mais longe. Ele tinha fome, mas ela obviamente não pararia antes do tal rio, mesmo que ele suplicasse, ela se desculparia com qualquer aborrecimento. “Não tem problema Horácio, pararemos em breve e você poderá finalmente saciar sua gulodice”. “Só até encontrarmos um lugar especial para comermos”. “Se quiser voltar pode ir, eu continuo sozinha”. Sabendo disso Horácio ficava quieto, preferia não se expor a mais uma derrota.
Finalmente escutaram o som de água. Um rio corria desesperado pelo pasto, alguns animais se aproximavam para beber de suas águas. Horácio respirava fundo o ar leve. Ela escutava e ria, vaidosa de mais uma vitória. Ele tentava sentir raiva, mas não conseguia. Ela era muito perfeita para que alguém a odiasse.
Apesar da beleza da paisagem, ela segue em frente. O caminho vai ficando mais odioso, o rio antes verde, fica turvo, a grama tão bonita, fica rala e seca. Horácio deseja voltar, mas ela anuncia. _Comeremos aqui_. Ele olha incrédulo para a paisagem espantosa, mas se senta exausto. A única coisa que explode em beleza é ela, se destacando no meio de tanta feiura.
Ela ajeita o vestido e se senta, abre a cesta e a distribui sobre a toalha, inicia o almoço do faminto Horácio. Mostra uma artificial surpresa com seu apetite. Os dois comem um pouco e também se embebedam um pouco. Ela pega um pedaço de pão e ameaça jogá-lo longe. Horácio se irrita uma vez mais com a brincadeira. Ela dá gargalhadas, ri até ficar constrangida com a seriedade dele.
Ela se estica e apoia a cabeça em seu colo, ele a olha obcecado pela beleza. Horácio fica paralisado, até que ela se levanta e sugere que continuem a caminhada. Ela sabia como tragar alguém.
Os dois seguem até onde a grama volta a nascer, cresce alta e dificulta o avanço. Mesmo com dificuldade, ela continua, elegante. Já Horácio sofre para carregar a cesta ainda pela metade. Cansado para. Apoia os braços sobre os joelhos, tenta se recuperar, enquanto ela corre sua mão por arbustos e vai se aproximando da mata. Zona fechada, insegura e perigosa. Ela age como uma criança que põe a mão no fogo demonstrando destreza diante dos covardes. Horácio suplica para que retornem. Ela fica cabisbaixa, apesar de não perder o sorriso. Horácio intensifica seus pedidos.
Ela se movimenta frenética. Algo parece mal. Horácio pressente o perigo. Ela continua saltitando distraída. Horácio implora, mas ela zomba girando a saia.
Ele grita. Ela olha assustada para ele. Mas já é tarde. Uma enorme Fera de olhos vermelhos salta da sombra e, de uma vez, agarra a moça.
Horácio fica entorpecido de medo. A Fera, com a moça frágil pendurada na boca, fita-o. Ainda viva ela faz, com suas últimas forças, um pedido de ajuda. Horácio não reage.
O robusto animal não perde mais tempo e desaparece dentro da mata. Horácio só escuta o grito da amada e tomado pelo coração se envereda pelo desconhecido. Não haverá mais volta.
O fraco corre sem parar, não olha para trás. A mata é densa, fecha seu caminho a cada novo passo. Ele tenta acompanhar o monstro seguindo o grito da amada:
_Me salve Horácio!
Ele vai se defendendo dos galhos das arvores que descem violentos. Arranhando-o. Ele não se entrega. Avança desesperado e não percebe que escurece rapidamente. A fera é veloz e logo se distancia. Ele se esforça, mas não consegue acompanhar. A perde de vista.
Cansado, Horácio para, respira duro e derrotado. Deixa o corpo cair. Olha voo no meio da escuridão. Canta, prometendo uma morte.em volta, só agora percebe que está completamente perdido. Uma ave desprezível levanta
A mata é cenário de histórias de finais trágicos, onde os mais valentes e audacioso perecem, quem dirá o desajeitado Horácio. Ele tenta retomar a respiração equilibrando o corpo sobre os joelhos. Olha em volta, se vê trancado no labirinto de enormes troncos, sente um calafrio como se seu corpo fosse atravessado por um infinito de agulhas.
A escuridão oculta todos os sinais da Fera, já não há mais qualquer caminho que o conduzisse para algum lugar. Estariam ele e ela condenados a morrer, somente questão de tempo. Se apoia sobre uma árvore e sentiu sangue fresco em um dos troncos.
_Meu deus! Será que ela já estava morta?_ Horácio tinha vontade de voltar pra casa, mas como abandoná-la no meio da mata, sem a certeza de sua morte? Será que o sangue frio era apenas pista do sangue que já não corria em suas veias? Horácio teme o pior, até escutar seu nome:
            _Horácio!
Era a voz dela. Esta viva.
Ele segue correndo. Sente que algo corre ao seu lado. Se assusta. Pisa em falso e rola sobre uma pequena elevação, a perna fisga com o mau jeito. Alguém ri no meio da escuridão. Horácio levanta e olha assustado ao seu redor. Que ser maligno lhe espreita? Escuta passos, sente que está sendo cercado, talvez tenha que lutar para sobreviver. Enfia a mão na cesta e agarra o primeiro metal que encontra. Puxa-o com firmeza e salta para fora uma reluzente faca de pão. Ridículo! Não lhe restam muitas alternativas a não ser seguir em frente.
Retoma a busca sendo seguido por algo, não consegue ver e por isso corre. Corre mancando por entre o breu, sentido que cada árvore pinga um pouco de sangue. Sente que lágrimas também escorrem de seu rosto.
Horácio não sabe se corre ao encontro dela ou, cada vez mais para dentro da mata, ao encontro do predador. Cada curva pode ser a armadilha final para o medroso Horácio.
_Quem este ai? pergunta.
Ninguém responde, Horácio só escuta uma respiração descontrolada, mas não tem certeza se não é a sua própria. As pernas doem, reclama pelo esforço deste salvamento fracassado. Pobre dela que morreria tão jovem. Um ódio lhe toma o coração, pensa em parar. Mas sente alguém tocar em seu ombro. Virá assustado e ataca. A lua, irônica, acende sua luz pela mata e ilumina tudo. Horácio desesperado olha ao seu redor e se vê sozinho, só estava ele e uma infinidade de troncos e folhas, o solo branco e liso. Ri de seu próprio medo.
De repente um grito.
É a voz dela, nítida. Está perto. Horácio busca. O luar ilumina algo ao fundo, algo difícil de distinguir. Horácio vai pouco a pouco se aproximando, mesmo pressentido o perigo. Chega mais perto. Consegue reconhecer algo na luz. A fera!
_Maldita lua que ilumina os caminhos que antes não podíamos ver_.
Horácio procura um esconderijo da luz.
A lua ilumina uma trilha vermelha que desenhava o caminho até o esconderijo do predador. Horácio observa oculto ao longe, distância cuidadosamente mantida pelo medo.
Teme que caso a fera não o matasse, outra coisa o mataria. Todos os cantos são suspeitos: olhos vigiam à espreita, um coro insuportável de insetos camufla a respiração dos inúmeros inimigos. Ele precisa salva-la.
Mas caso alcançasse a besta lutaria com o que? Com a faca de pão? Era melhor esperar que a besta se aquietasse em algum momento, então ele poderia atacar de surpresa. Horácio tenta refletir um pouco, mas só continua tremendo em seu canto, esperando um momento ainda melhor, um momento em que ele se envolveria de coragem, uma coragem que viria de dentro de si e que por si só acabaria com o mostro.
Ela grita mais uma vez. O monstro se movimenta frenético. Horácio teme que nunca haja um momento ideal de atacar. O rapaz reúne coragem. Talvez, ela não merecesse o sacrifício. O bicho grita!
Um grito de animal. E depois completo silêncio. O coração do moço treme, talvez fosse tarde demais, a coragem viria tarde demais. A lua foca uma luz cadavérica, denunciando a posição de Horácio. Ele lamenta o trágico fim de seu esforço, depois de tanto caminhar, com os pés quase sangrado, com o peito quase tombando, ele finalmente havia perdido.
Porém sente também certo alívio. Pensa em recobrar as forças para tentar o regresso, pelo menos ele ainda poderia se salvar. Mas Horácio se comove ao ver rasgado o bonito vestido da moça em um galho de árvore.
Repentinamente, um ódio enche seu corpo e ele pega um pedaço forte de madeira com o qual vingaria sua amada. A mata de repente se silencia, a lua generosa ilumina o caminho de Horácio até a posição da fera.
Horácio respira metálico, controla sua fúria para despejá-la de uma só vez na sua decisiva luta contra a besta, a última tentativa de defender sua honra. Se aproxima aos poucos, pôde ver o corpo do qual o sangue escoa, um corpo abatido, um corpo imenso.
Horácio olha apavorado o corpo da fera decepado com as tripas estiradas ao redor. Olha apavorado, tão apavorado que não vê sua morte se aproximando.